Dentro da programação do Novembro Negro do SindBancários, nesta quarta-feira (12/11) a noite foi marcada por arte, reflexão e compromisso político com a pauta racial.
A abertura ficou por conta da performance poética “Chamaram-me Negra”, apresentada pelas artistas Rose Nobre e Rosa Mayombe, com percussão de Naná Correa. Inspirada no poema de Victoria Santa Cruz, ativista afro-peruana, a encenação retratou a descoberta da negritude e a transformação da dor do racismo em afirmação e orgulho.
Em seguida, ocorreu a roda de conversa “Justiça para o Povo Preto”, organizada pelo Coletivo Sindical Antirracista, formado pelo SindBancários e outras oito entidades e movimentos: CPERS, CUT-RS, Semapi-RS, Sindiserf-RS, Sindjus/RS, Sintrajufe/RS, Movimento Negro Unificado (MNU) e Unegro RS.
O debate abordou o protocolo para julgamento com perspectiva racial, instrumento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que orienta magistrados e servidores a considerar questões raciais nos processos judiciais, a fim de promover decisões mais justas e equitativas. A ausência dessa abordagem, destacaram os participantes, tem perpetuado desigualdades e dificultado o acesso da população negra à justiça.
Vozes da luta antirracista
O diretor de Diversidade e Combate ao Racismo do SindBancários, Paulo Caetano, ressaltou o compromisso do movimento sindical com a pauta racial.
“É uma luta que nós daremos continuidade, pois, independente de partido ou categoria, nós somos trabalhadores e revolucionários. Defendemos melhores condições de vida, mais acesso a espaços e justiça para um povo que está há tanto tempo carente. Precisamos sonhar e nos mobilizar, porque tudo é possível”, afirmou.
Já Isis Garcia, secretária de Combate ao Racismo da CUT-RS, destacou a necessidade de construir uma nova cultura sindical, com representatividade.
“Meu trabalho é tornar cada sindicato um território ancestral, com conscientização, formação, incentivo à busca ativa por pessoas negras. Quando dirigentes dizem que em seu sindicato não há pessoas negras, é preciso lembrar que estamos em todos os lugares, em todos os ramos. Cada entidade deve construir seus coletivos antirracistas, pois o racismo não é um problema só nosso, é da sociedade como um todo”, ressaltou.
Quilombos: resistência e urgência
A discussão também tratou dos impactos da falta de aplicação do protocolo para julgamento com perspectiva racial na demarcação dos territórios quilombolas, que guardam a história e a cultura do povo negro e enfrentam constantes ameaças.
Os advogados Onir Araújo, da Frente Nacional de Defesa dos Territórios Quilombolas – Seção RS, e Thales Miola, do MDRR Advocacia & Direitos Humanos, compartilharam experiências junto a comunidades quilombolas do estado, como Família Silva e Kédi, em Porto Alegre, e São Miguel dos Pretos, em Restinga Seca.

O chefe da Divisão de Territórios Quilombolas do Incra-RS, Sebastião Henrique Lima, informou que o Rio Grande do Sul possui 160 terras quilombolas conhecidas, das quais 115 com processos abertos, sendo 60 com movimentação e apenas cinco tituladas.
“Se seguirmos nesse ritmo, levaremos 500 anos para regularizar os territórios. As normativas só vão mudar quando a sociedade tiver essa pauta como dela, pois a questão quilombola não é do Estado, nem dos quilombolas apenas, é de toda sociedade civil organizada. E só com a titulação é que políticas públicas como saúde, educação e crédito chegarão de fato às comunidades”, alertou.
Mobilização contínua
Ao final, o Coletivo Sindical Antirracista definiu a continuidade do debate e a elaboração de uma carta a ser entregue ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), cobrando a efetiva implementação do protocolo para julgamento com perspectiva racial.
O SindBancários reafirma seu compromisso com a luta antirracista, a defesa dos territórios quilombolas e a construção de uma sociedade verdadeiramente justa e igualitária.
Confira aqui a transmissão do evento
Jornalista/Fonte
Imprensa SindBancários